Elizabeth Spann Craig

Empréstimo Mortal


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eles? Ou talvez trazer apenas o gato laranja de volta? Isso tornaria as coisas mais fáceis?

      – Por que não traz a gata malhada de volta como uma solução temporária? Talvez possamos tentar descobrir se pertencem a alguém. Na pior das hipóteses, vou ver se um de nossos clientes pode adotá-la – disse Wilson.

      – Parece uma boa ideia. E, mais uma vez, não vou cobrar pelos cuidados médicos.

      Wilson levou a mão à testa como se tivesse começado a ficar com dor de cabeça.

      – Vou tirar algumas fotos e colocar nos quadros de avisos para ver se alguém os reconhece – falei.

      Wilson fez uma careta. – Talvez tivesse sido melhor tirar a foto quando estavam aconchegados nas toalhas de praia e não agora que estão encolhidos nas caixas de transporte.

      – Vou abrir a porta das caixas e usar o flash – expliquei. Tirei uma foto com o celular e olhei o resultado. – Nossa! – Tentei outra vez. – Tudo bem, está um pouco melhor. Independentemente disso, se as fotos não ajudarem a encontrar o verdadeiro dono, então ela pode ficar aqui na biblioteca enquanto se recupera e tenho certeza que alguém vai adotá-la.

      Wilson e a veterinária pegaram as caixas e foram para o estacionamento enquanto eu pegava as toalhas e as colocava em um saco de lixo para lavá-las em casa mais tarde. Em seguida, imprimi panfletos escrito ‘Encontrado’ com as fotos dos gatos e os coloquei em vários lugares da biblioteca. Depois disso, como meus pés ainda estavam chapinhando nos sapatos, voltei para a sala de convivência.

      Wilson voltou alguns minutos depois e me olhou em silêncio enquanto eu tirava os sapatos e tentava enxugá-los inutilmente com toalhas de papel.

      – Acho que está esquecendo alguma coisa.

      Aquelas palavras me fizeram prender a respiração. Se havia uma coisa que eu odiava era estar atrasada ou esquecer algo. – O quê? Não me diga que temos alguma leitura para crianças hoje à noite.

      – Você tem aquele encontro às cegas esta noite – disse Wilson com uma risada. – Esqueceu que pediu para sair mais cedo? Não quer ir para casa se arrumar?

      – Nããão! Esqueci completamente. – Uma coisa sobre ser solteira aos trinta e poucos anos é que havia muitos clientes bem-intencionados morrendo de vontade de lhe arranjar um namorado. Era fofo e ao mesmo tempo frustrante. – Tenho uma roupa aqui na biblioteca para usar em caso de emergência – respondi no modo automático.

      – Não duvido. Sei como você é organizada. Me perdoe por dizer isso, mas seu cabelo e maquiagem estão deixando muito a desejar. Não estão apropriados para um encontro. É até discutível se estão apropriados para trabalhar em uma biblioteca.

      Me estiquei para me olhar no espelho sobre a pia da sala de convivência. Wilson tinha toda razão. Meu cabelo, preto e com corte na altura dos ombros, estava preso no alto da cabeça, e as pontas ainda pingavam água da chuva na minha blusa preta e calça cáqui, já encharcadas. O rímel e delineador tinham escorrido, me fazendo parecer um guaxinim. Isso sem mencionar as pegadas enlameadas e pelos de gato por toda a minha roupa.

      Sorri para Wilson. – Na verdade, isso é perfeito. Agora posso assustá-lo e não preciso ir a um segundo encontro.

      Wilson bufou e balançou a cabeça. – Está está sendo boba, Ann. Esse homem pode ser alguém com quem você possa ter um relacionamento de verdade.

      – É um encontro às cegas. Nada de bom surge de um encontro às cegas. Acredite, eu sei o que estou dizendo. Poderia escrever um livro sobre esses encontros, já fui a vários. Choveu o dia inteiro e tudo que quero fazer é ir para casa, vestir meu pijama e me aconchegar na cama com um livro. Além disso, não estou com a mínima vontade de dar uma chance a um relacionamento agora. Estou com trabalho demais na biblioteca.

      – Sempre temos trabalho demais na biblioteca. Se está esperando que isso mude, ficará solteira por muito tempo. Você está com 30 e poucos anos. Sei que costuma ter encontros, mas nunca a vejo ter segundos encontros. Não é ruim ser exigente, mas ás vezes parece que você está se enterrando na biblioteca em vez de se aventurar em busca de alguém com quem aproveitar a vida.

      – Você está parecendo algumas das nossas clientes idosas. E os caras do clube de cinema da biblioteca – disse, erguendo uma sobrancelha.

      – Além do mais, aquela cliente foi gentil em marcar um encontro, não acha? – perguntou Wilson, ignorando o meu comentário.

      Suspirei. – Emily é um doce. Ela não consegue evitar essas coisas, mas tenho a sensação de que está pensando mais no sobrinho-neto do que em mim. Acho que esse encontro será um desastre. Mas você tem razão, talvez eu esteja inconscientemente tentando sabotá-lo.

      – Como seu diretor, estou mandando você ir para casa se arrumar. – Ele fez uma pausa e continuou com uma rara demonstração de gentileza: – Temos ajuda de sobra hoje. Vai ficar tudo bem. E amanhã vamos receber a nova bibliotecária infantil, então teremos ainda mais ajuda.

      Sorri. – Entendi. Está bem, vou embora. Estou levando as toalhas de praia molhadas para lavar. E você tem toda razão: será fantástico ter uma nova bibliotecária amanhã.

      – É claro que vai. E você se saiu muito bem com as leituras infantis.

      Contive um sorriso. É óbvio que não acreditei no que ele disse.

      – Obrigada. Mas não acho que trabalhar com crianças seja exatamente o meu dom. – Eu estava empolgada com a literatura infantil. Adorei a experiência, desde Babar, o elefante até Don't Let the Pigeon Drive the Bus. Mas de alguma forma, as crianças sempre pareciam inquietas quando eu era a responsável pela leitura das histórias, posição que ocupei durante vários meses enquanto Wilson lutava para preencher o cargo de bibliotecário infantil.

      Carreguei o saco de lixo com as toalhas de praia molhadas até meu velho Subaru e fui para casa. Felizmente, a minha casa ficava a apenas alguns minutos de distância, não que houvesse algum lugar muito longe em Whitby. É um belo vilarejo nas montanhas, com muitos edifícios antigos e árvores ainda mais antigas. É o tipo de lugar onde as famílias passam férias para fugir da cidade e ver as folhas de outono em Blue Ridge Parkway. Há também um lago tranquilo, próximo ao parquei, perfeito para pescar e relaxar em tardes preguiçosas.

      Minha casa era mais um chalé, embora eu adorasse o lugar. Depois que minha mãe morreu, quando eu era bem pequena, minha tia-avó me acolheu e me criou lá. Quando ela faleceu há cinco anos, deixou a casa para mim. Havia uma profusão de roseiras, gardênias e azáleas. Vinhas floridas subiam pela fachada de pedra, dando a impressão de ser uma cena extraída de um livro de histórias. O que, como bibliotecário, me convinha perfeitamente.

      Na maior parte do tempo, eu amava meu bairro. Era uma rua de casas antigas, mas com muita personalidade. Algumas eram casas de artesãos, o que achei muito legal. Todos tentavam manter o mesmo estilo de jardinagem, com graus variados de sucesso.

      Tive sorte porque minha tia plantou um jardim incrível e a minha única tarefa era mantê-lo. Eu sempre pensava nela quando o admirava. As lembranças costumavam me dar uma pontada no peito, mas agora finalmente me faziam sorrir. Demorou um tempo até me acostumar com a sua ausência.

      Durante a semana, passo algum tempo cuidando do jardim, mesmo que a princípio não soubesse o que estava fazendo. Melhorei bastante depois de consultar alguns livros e revistas na biblioteca, e mais ainda quando convidei um funcionário do condado para dar uma palestra sobre cuidados com arbustos e flores. Eu ainda tinha planos de um dia plantar uma horta no quintal, como minha tia costumava fazer todos os anos. Porém, depois de uma avaliação honesta da minha disponibilidade de tempo, resolvi deixar essa ideia de lado.

      Havia apenas duas pessoas na rua que me incomodavam, e de maneiras diferentes. Uma delas era Zelda Smith, uma mulher mais velha, com cabelos ruivos tingidos de henna, e que fumava sem parar.

      A outra pessoa era um cara que tinha acabado de se mudar. Ele parecia descontraído, espirituoso, bonito e tinha um olhar que me fazia derreter. Até então, eu nem tinha falado com ele, mas já